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Histórias/Estórias antigas
Histórias/Estórias antigas

 Aqui podem encontrar histórias antigas da nossa aldeia e arredores. Estas histórias foram retiradas do fórum, com alguma correcções. Coloquei os nomes dos autores por baixo de cada história para dar os devidos créditos.

 

  A INOCÊNCIA DO FAUSTO  

Primeiro Domingo de Julho, abertura do monte, todos os lavradores levam os seus animais para o seu monte, o "farnel e o palhinhas" também não podem faltar, por vezes o álcool trepa aos neurónios. As vacas dos Ritos fogem para o monte da Póvoa, alguns povoenses tocam os animais para a sua povoação, dois dos Ritos (Alfredo e João) acompanhados por mais alguns "valentões" saem-lhes ao caminho, armam zaragata e trazem os animais de volta para os caminhos de Cetos.

Passados oito dias dois pedreiros de Cetos (João Fernandes e António Coelho) quando regressam a casa vindos de Moimenta (sem nada saber do que se tinha passado a trás) atravessam a Póvoa. À saída uma mão cheia de "valentões" os espera. Mocada de ferver, de tal maneira que um dos inocentes fica estendido como morto, havendo necessidade de uma brigada vinda de Cetos armada com varapaus e pistolas o vir resgatar. A sede de vingança instala-se na Comunidade cetense. Passados dois ou três dias toca o sino da capela a rebate, a intenção é mobilizar o pessoal para obrigar as pessoas da Póvoa que andam nas suas propriedades a recolher à sua povoação (humilhação total).

O Veríssimo, senhor da sua dignidade, recusa-se a tal humilhação. Zé Bravo (pai) afirma com convicção "eu vou machucar o siôr" (não era conhecido pois tinha chegado à pouco tempo do Brasil) perante a recusa do Veríssimo (creio que era avô do Zé Saraiva), este é agredido violentamente. Passado meio ano por este motivo ou não o coitado do Veríssimo acaba por morrer.

A situação acaba na barra dos tribunais. As testemunhas da Póvoa são duas crianças que manipuladas ou não afirmam que foi o Fausto (avô do Orlando) quem bateu no homem da Póvoa. O juiz determina, pelos vistos sem grande convicção, que este terá que aguardar seis meses na prisão.

Fausto cumpre os seis meses sem nunca denunciar os verdadeiros culpados, partindo do princípio que se os denunciasse os seis meses seriam multiplicados por várias unidades para os verdadeiros prevaricadores e tendo como garantia que estes sempre lhe pagariam a totalidade das despesas. Solidariedade total.

(tonito)

 

FAUSTO E OS PASTORES

       Em tempos que já lá vão, era hábito os pastores da serra da Estrela arrendarem os montes da serra do Montemuro para darem alimento aos seus animais, que escasseava na sua região. Os aldeões faziam uma espécie de romaria para visitar no alto da serra tamanha quantidade de animais e sua corpulência, com especial relevo para os cães.

       Fausto, homem de muito alimento numa dessas visitas e, após troca de palavras, apostou com os ditos pastores em como eles não tinham refeição que fosse capaz de o saciar. Os pastores aceitaram o repto convencidos que a afronta não passava duma brincadeira, mas a verdade é que o "pobre" do Fausto nunca mais parava de comer pão e beber leite, de tal maneira que os pastores acabaram por intervir no sentido de ele parar para deixar pelo menos comida para os cães.

      Reza a estória que o Fausto estava disposto, por orgulho e muita vontade, de comer a merenda de 7 pastores e 20 cães!

       (tonito)

 

   AMOR ÀS TERRAS

      José da Eira, homem abastado, sentindo-se enfermo e vendo os dias chegar ao fim, reuniu os filhos com o intuito de lhes pedir um último desejo para que pudesse morrer descansado: - Pretendia visitar todas as suas propriedades.
Os filhos ficaram muito admirados e pensativos pelo motivo de tal pedido, mas como a um ancião não se negam desejos desta natureza, pegam no carro das vacas, improvisam uma cama, jungem-se os animais e toca a visitar todo o pedaço de terra que lhes deu sustento ao longo de décadas.
....E assim morreu em paz!

PS: José da Eira, habitante da Pereira, pai se 6 filhos, avô da mulher do Martinho e do Salvador....

       [tonito)

 

 CLAUDINO HOMEM DE MUITA FÉ

     Claudino dizia amiúdas vezes: "vou morrer, vou morrer!" E o pessoal retorquia: "ai morres, morres, de certeza que não ficas cá para a semente." O que a malta não esperava era que acabasse de forma tão expectante.

    Certo dia abre a porta da corte ao gado, entrega-o à vigia, veste-se de Franciscano, senta-se numa cadeira, pede uma tijela de caldo à esposa e fica-se para sempre, jamais voltando a dizer: "vou morrer, vou morrer."

    Morte santa!

PS: Claudino natural da Pereira pai do tio Guilherme (especialista no fabrico de peões).

       (tonito)

 

 A BATALHA

No distante ano de 1956, o ultimo dia do ano dia de são silvestre foi tristemente assinalado na povoação de Cetos, freguesia de Pinheiro, concelho de Castro Daire.

Havia fortes rivalidades entre duas famílias que espalhavam uma a outra ódio de morte, trazendo desde há muito tempo demandas no tribunal de castro Daire. Havendo neste caso, como em tantos outros, quem tomasse partido por uma ou outra família fez com que houvesse dois grupos em Cetos.

Uns tempos antes estes ódios tinham se reacendido com a morte do guarda-rios Adriano da Costa, o que fez com que um dos grupos suspeitasse de um membro de uma das famílias como causa da sua morte.

As autoridades judiciais tinham procedido à necessária autopsia e tinham ouvido dezenas de testemunhas, mas nada tinham apurado contra o suposto assassinato (se é que havia um assassinato), e ate foi requisitado um agente da polícia judiciária para investigar o caso.

Mas os mais antigos já há muito que esperavam esta batalha. Tudo começou, então, na taberna do Manuel Adelino de Almeida. Daí a pouco já estava nas ruas da aldeia. Foi um alarido. Havia facadas, tiroteio com armas, caçadeiras e pistolas, sacholadas e pedradas.

Para terminar com esta batalha e evitar possivelmente mortes foi preciso o Manuel Carneiro da Cunha Marado. Este, regressando da caça e, de surpresa, deu um tiro nas pernas do Ernesto da costa pinto que estava a tentar acertar na cabeça do inimigo.

Na altura as autoridades policiais tomaram conta das ocorrências. A sentença foi muito interessante mas só foi lida a 4 de Agosto de 1957.

Depois de várias audiências, terminou, no tribunal desta comarca, o julgamento dos implicados na batalha de Cetos. Esperava-se que com esta sentença que as pessoas de Cetos pudessem viver em paz e harmonia, principalmente as duas famílias que ocasionaram a lamentável desordem.

A sentença foi feita as 6:30 da manha do mês de Junho com o tribunal colectivo toda a noite reunido, tendo sido condenados nove dos réus e a absolvidos os restantes vinte.

Foram absolvidos: João Augusto Pinto Aveleira, João da Cunha Marques, Sérgio Augusto da Costa Dias, Manuel da Cunha Marado, Manuel da Costa Aveleira (designado por o rola), José Augusto da Costa Aveleira, Manuel Alcino Duarte Aveleira, Joaquim Augusto da Cunha Pinto, Celso Augusto da Costa Pinto, Maximino da Costa Pinto, Manuel Adelino de Almeida, Manuel Augusto da Costa Teixeira (designado por Miluto) Manuel Augusto da Costa Pinto (designado por o Frade), Auliria Cardoso, Laura Maria Cardoso Marques, Alfredo Duarte Rito, Maria Carneiro Marques, João Augusto Rito, e Maria da Luz da Costa.

(Dinis)

 

O HERÓI NU

 Nu, de seu nome António, era filho de Manuel Rito (o ferreiro) e de Luzia, descendente dos Paulinos da Pereira.

Na sua época um dos desportos favoritos era o jogo da arca, que consistia em derrubar o adversário sem recurso à violência. O campeão da altura era o Mouco de Moimenta que fica perto de Cabril. O Povo de Cetos, conhecendo a força descomunal do seu conterrâneo, acreditava que pudessem vencer se estivessem nos seus dias. Pois Nu não era constante, tanto levantava pesos excessivos para humanos, como amolava perante carga ao alcance duma criança.

Marcado o desafio para a aldeia de Faifa. As gentes das Povoações da redondeza fizeram romaria para assistir a tal jogo, à semelhança do que acontece hoje com a luta de bois. As apostas pendiam claramente para a vitória do Mouco.

Chegada a hora marcada, Nu arrancou para o seu adversário como um touro enfurecido. Levantou-o 5 vezes e, antes que Mouco pudesse aplicar as suas habilidades, já estava estendido no chão.

Queria o homem de Moimenta, e Nu concordava, ter direito à desforra. Só que os jovens de Cetos, conhecendo a inconstância do seu herói, não autorizaram, sendo apelidados de "peito de galinha" pelo Mouco.

Não só inviabilizaram o direito à resposta, como ainda lhes "roubaram" as moças de Cabril. Parece que alguns deles teriam lá uns namoricos de circunstância.

(tonito)

 

   COMO SE ENGANA AS AUTORIDADES

 Estrada Nacional nº2, Dinis passeia-se no seu bólide, prego a fundo, o ponteiro do conta-quilómetros atinge os 160 km/h. A polícia segue no seu encalço. Dinis com alguma sorte e perícia à mistura consegue escapar.

As máquinas fotográficas da autoridade registam o número da matrícula.

Os computadores da Direcção Geral de Viação indicam que o proprietário da viatura tem domicílio em Cetos. A GNR desloca-se à aldeia procurando o infractor. Dinis mostra-lhe a viatura a que corresponde a matrícula captada pelas objectivas. Era um tractor cuja velocidade máxima não ultrapassa os 30 km/h.

A GNR pede imensa desculpa pelo engano e abandona Cetos de "rabo a abanar". Dinis tinha colocado a matricula do tractor no automóvel que tinha sido visto a circular a 160 km/h.

(tonito)

 

   A OVELHA QUE MATOU O LOBO!  

Em Junho de 1941 aparece um lobo pela zona do Val do Sancho, certamente procurando alimento, ou então, completamente desnorteado, pois segundo reza a história, o animal era fêmea e teriam-lhe matado as crias no seu habitat natural, no alto do monte.

Tia Lagóia dá o alerta. Mobilizam-se os caçadores, seguindo no seu encalço.
José Marquês (pai do Marquês) consegue desfazer-lhe uma pata dianteira, não sendo suficiente para evitar que escapasse, mesmo movendo-se só com 3 membros.

Manuel Ferreiro e Tomás Ovelha, armados de varapaus, afoitam-se na perseguição. O animal é encurralado lá para o lado das Barrocas e, com cacetadas certeiras na cabeça, acabam por artordoá-lo sem que o carnívoro, que lutava valentemente pela sua sobrevivência, não deixasse gravado no corpo de Tomás Ovelha as marcas dos seus dentes.

A notícia corre à velocidade da luz.

Os homens juntam-se e transportam o animal para a povoação, tendo a preocupação de prender-lhe um torgalho de giesta ao pescoço para evitar que possa vir a ferir algum ser humano.

Já em Cetos, o lobo recompõem-se mentalmente, mas fisicamente não consegue mover-se. A sua ferocidade e vontade de viver era tal, que nenhum cão conseguia aproximar-se quando este abria a boca.

Consta-se que esta história foi publicada nos jornais com o título sugestivo: "A Ovelha que matou o lobo"

(tonito)

 

HOMENS E BOIS NA CRUZ!

     O ACONTECIMENTO
.

Finais da década de 60, primeira feira anual da Serra do Montemuro, no local da Cruz do Rossão. Engalanam-se gentes e animais de todas as terras vizinhas. Pêlo luzidio denotando fartura de alimentos nos bovinos e guizalhadas reluzentes por vaidade humana. Vestes domingueiras complementadas com pau geralmente terminando em moca, flexível e envernizado em todo o homem que se preze.

Segue na debandada ao alto da Serra o boi do tio Aquilino, herbívoro robusto e corpulento, apresentando bom trato. O sol cristalino, o ar límpido e leve, transmite energia electrizante a todas as criaturas. Transpira-se alegria por todos os poros. Já no monte, e depois do mata-bicho, promove-se a achega. O adversário do boi de Cetos é o boi da Gralheira. Os homens fazem circo encostados aos seus paus, envolvendo a "arena", incentivando o seu animal predilecto. O "Guerreiro" do tio Aquilino cai numa pequena ravina, levanta-se e investe de novo sobre o seu adversário. Algum pessoal da Gralheira não autoriza a continuação da luta!

Cantando vitória! Os ânimos exaltam-se, o sangue sobe à flor da pele. Surge a primeira pancada. O efeito bola de neve cresce à velocidade da luz. Alguns homens de outras terras a cavalo e com sangue frio, tentam a todo o custo evitar o que parece impossível… Mocada de ferver! Um dos intervenientes na pancadaria parte o seu pau. Foge da barafunda perseguido por outros "valentões". Uma criança cai à sua frente no meio dos tojos. O homem perseguido, prevendo o pior, levanta a criança e continua a fuga.

Finalmente por acção dos cavaleiros e exaustão dos combatentes, a zaragata termina. O sangue jorra pela cabeça de alguns menos afortunados. A água fresca da montanha serve de "betadine", o pano que cobria as merendas de penso e as mãos calejadas dos campestres trabalham com a mesma delicadeza dos enfermeiros.

Regressam a casa. Uns exaltando as suas proezas, outros lamentando o sucedido.

O RESCALDO

Passado algum tempo, um dos intervenientes da Gralheira no jogo do "quebra-cabeças" morre. O povo de Cetos, num acto de solidariedade, organiza uma colecta para auxiliar a viúva da vítima. Seguem-se as manifestações de carácter desportivo entre as duas Povoações, com especial incidência no futebol.

Daí em diante caminham lado a lado na senda da concórdia e do progresso, criando laços de amizade e fraternidade que se desejam eternos.

O culminar desta boa vivência, deu-se à relativamente pouco tempo, em que tive a felicidade de estar presente. As boas gentes do concelho de Cinfães convidaram e receberam o pessoal de Cetos, pondo em jogo todas as suas capacidades físicas e mentais, para que nada faltasse, numa linda festas realizada na sua aldeia.

BEM-HAJA, POVO DA GRALHEIRA!

P.S. A criança que caiu nos tojos é o autor destas linhas.

(tonito)

 

O CASAMENTO DO TIO MARADO

Havia uma bem prendada – materialmente – em Cetos, chamada tia Pinta, e o tio Marado estava interessado nela. Entretanto, ela iria se casar com um gajo de Vila Nova.

No dia em que ela ia se casar, teria que passar por caminhos tortuosos e cheios de arbustos. O tio Marado, então, escondido atrás dos arbustos e com uma aguilhada, espetou a burra em que ela ia montada. A montaria, com a dor da espetadela, jogou a tia Pinta ao chão, vindo ela a quebrar um braço.

Neste meio tempo, enquanto a tia Pinta tratava de curar o braço, o tio Marado passou-lhe a conversa, querendo que a tia Pinta se casasse com ele. Ela achou mais prático se casar com um moço da terra aceitando, então, a proposta do tio Marado 

(Luís Erasto)

 

A TRAVE E AS PERDIZES

Dizia o tio Marado que teria ido à caça, lá pelos lados de Faifa. Em certo ponto, ele teria visto os restos de uma casa em ruínas. A casa tinha somente as paredes de pedra e a trave cumeeira feita de carvalho.

Empoleiradas na dita trave, encontrava-se um bando de perdizes (grande número, mas indeterminado).

O tio Marado, então, deu um tiro com sua espingarda de carregar pela boca, vindo a acertar a já mencionada trave. Esta, com o impacto do tiro, rachou ao meio, no sentido longitudinal, fechando-se logo de imediato e prendendo os pés das perdizes. O grande caçador retirou as perdizes ainda vivas, prendendo-as no seu cinturão, como era costume da época, retornando logo para sua casa.

Em seu caminho de volta ao lar, o tio Marado tinha que passar pela Serra do Carquejal. Nesse exacto ponto, as perdizes começaram a bater as asas rapidamente, levantando voo juntamente com o tio Marado pendurado nelas. As perdizes, alcanço voo, dirigiram-se para a Serra do São Macário. Quando sobrevoavam o Rio Paiva, a uma altura aproximada de 300 metros, o tio Marado muito se apavorou, pensando que elas pudessem parar de bater as asas, fazendo com que ele caísse de tal altura, directo no Rio Paiva. Entretanto, tal não aconteceu, pois as perdizes continuaram voando e só pousaram na Serra do São Macário.

O tio Marado, então, rapidamente, e aproveitando-se que as perdizes haviam pousado, puxou sua faca de caça e cortou seu cinturão fugindo para Cetos. Atordoado, demorou 03 dias para chegar em casa.  

(Luís Erasto)

 

DA CAÇADA AO COELHO

Em certo dia de caça, dia infeliz pois nada tinha conseguido abater, dispunha-se o tio Marado a voltar para casa, visto que já tinha gasto todo o chumbo, não mais podendo carregar sua espingarda.

Lembrou-se ele, porém, que trazia duas bolotas de cera num bolso, resolvendo, então, carregar a espingarda com cera para qualquer eventualidade.

Ainda no monte, mas já voltando para a aldeia, seus cães começaram a latir. Viu o tio Marado que os cães perseguiam um coelho e que esse coelho vinha exactamente na sua direcção.

Decidido a não passar o dia sem levar nada para casa, e confiando ma sua perícia e pontaria, apontou sua espingarda – carregada com cera – para a cabeça do coelho, e disparou. Com o calor do disparo a cera derreteu e atingiu a fronte do coelho. Este, cego de dor com a cera derretida que lhe cobria os olhos, tornou para trás e correu na direcção contrária.

Nesse exacto momento vinha outro coelho correndo em direcção ao primeiro, vindo os dois a se chocarem de cabeça um no outro. Como o primeiro coelho tinha a fronte coberta com a cera derretida, com o choque violento, os dois coelho ficaram grudados um no outro e zonzos.

O tio Marado só teve o trabalho de levantá-los pelo meio com o cano da espingarda, e carregá-los para casa.  

(Luís Erasto)

 

O CASO DOS DOIS CUNHADOS

O tio Marado morava lado-a-lado com seu cunhado Maximino, que era muito chegado a uma bagaceira. Em certa época, o tio Maximino, como se encontrava muito enfermo, estava proibido, pelo médico, de ingerir qualquer quantidade da aguardente, pois havia risco de morte se o fizesse. O tio Marado, fazendo uma visita ao Maximino, ouviu deste o seguinte:

- “Cunhado, dá-me, te peço, um pouquinho de aguardente.”

O tio Marado sabia que seu cunhado não poderia beber em hipótese alguma. Entretanto, vendo ele os olhos suplicantes do doente, não resistiu ao pedido de seu cunhado e amigo. Foi buscar a aguardente, e deu para o tio Maximino, dizendo:

- “Bebe, Maximino. Com fome podes morrer, mas com sede não vais morrer.”

O tio Maximino, pegando na garrafa da bagaceira, levou a mesma à boca, bebeu um pequeno gole e disse ao tio Marado:

- “Obrigado, cunhado.”

E foram suas últimas palavras, pois faleceu imediatamente.

(Esta não é uma das famosas histórias do tio Marado; ela é verídica!) 

(Luís Erasto)

 

AQUI HÁ GATO

 Já lá vão mais de 50 anos que a Povoação de Cetos, incentivada pelo Padre da Paróquia, teve necessidade de renovar a Capela. É preciso fazer um Campanário, a parte arquitectónica geralmente mais nobre, nos locais de culto da Igreja Católica. Para os trabalhos mais nobres escolhe-se os melhores artistas! O seleccionado foi Mestre Manuel Duarte, homem de perfeição suprema, mas vagaroso como todos os criadores.

A obra vai avançando lentamente, demasiado lenta para a paciência da Povoação e do Padre. O Povo céptico começa a passar a palavra. "Aqui há gato", a obra nunca será acabada! Este comentário chega aos ouvidos de Mestre Manuel Duarte. Senhor do seu próprio orgulho. Prepara a réplica na perfeição.

Em simultâneo com o Campanário e às escondidas, a maceta, o escopro, as mãos e a sabedoria desenham no granito o mais familiar dos felinos. Dizem, quem viu, que a escultura era a imagem real do gato.

Obra acabada, gato colocado!

Os encaixes do felino no Campanário foram estudados com tanto rigor, com tanto engenho, com tanta arte, que era impossível retirá-lo de mão leve.

O Padre desgostoso considera o acto um sacrilégio, as "Beatas" seguem pelo mesmo diapasão. Manuel Duarte goza com a situação. Dizia que quem quisesse retirar o gato era pôr-lhe um rato no caminho ou então um testinho com leite.

O Padre afirma que se as balas o removessem ele próprio se incumbia de tal tarefa. Ordena aos Mordomos essa missão. A remoção terá que ser executada pela calada da noite, de modo a evitarem-se zaragatas.

Da primeira vez não conseguem mais que separar a cabeça do corpo. Noutra noite, e provavelmente com mais preparação, os Mordomos conseguem finalmente retirar o corpo do gato do cimo do Campanário, mesmo assim, só ao fim de 5 marretadas. O felino parecia que tinha lá criado raízes ou âncoras, tão ao gosto de seu criador.

O corpo foi deitado ao abandono num imóvel pertencente a Mestre João Aveleira. A cabeça está na casa do tio Nelson. O pedestal está em poder do tio Gabriel.

Vamos todos fazer um esforço, para que seja possível juntar a cabeça ao corpo, reconstituindo a escultura, que é sem dúvida um Património valioso, construído por Mestres de Cetos. Só falta dar um pequeno passo: descobrir onde está o corpo e sensibilizar as pessoas para que coloquem a escultura ao serviço da comunidade.

(tonito)

 

O ELIXIR DO AMOR.

 Dinis, adolescente de 9/10 anos, sente que a sua estrutura óssea, a sua massa muscular e a sua mente estão preparadas para o amor.

Procura por todos os meios ao seu alcance conquistar uma donzela. Não conseguindo seus intentos, desanimado, busca conselhos junto de pessoas mais velhas.

Horácio, seguramente levando 30 anos a mais de existência, dá-lhe a receita milagrosa. O Elixir do Amor. O Sex. appeal. Dinis terá que apanhar uma víbora, cortar-lhe a cabeça, colocá-la dentro de um frasco com álcool e andar com ele no bolso durante um mês.

Dinis percorre todos os matos da Levada até ao Talegre, apanha um réptil e coloca a cabeça num frasco de álcool, trazendo-o colado ao corpo durante mês e meio.

Como não atinge os seus objectivos, reivindica o insucesso da receita junto do criador. Horácio examina o frasco e verifica que a cabeça não é de víbora, mas sim de salabardo.

A sentença é dada. Como Dinis não cumpriu na íntegra a composição do Elixir do Amor! Terá que passar no mínimo 15 anos em castidade, e a donzela será de fora da freguesia.

15 Anos depois!

Por caridade,

talvez por amizade,

quem sabe se por amor.

Uma moça de picão,

ao Dinis deu a mão,

libertando seu coração.

Do ódio e do rancôr!

 (tonito)

 

A PRENDA

Há uns 30 anos atrás, não sei bem ao certo, andava o Tio Pesseguelro a reconstruir a casa do Tio Sérgio na rua torta. Depois da obra quase pronta, faltava apenas acabar a casa de banho, meteram a sanita, mas ainda não estava ligada à fossa e nem tinha agua.

Quando no dia seguinte, o Tio Pesseguelro chegou para concluir o trabalho, reparou que já um artista se tinha servido da mesma. Indignado, quis saber qual foi o artista, reuniu os 3 irmãos Dinis e Gémeos e disse: "Meus meninos, tenho aqui uma prenda para o primeiro que se servir da casa de banho".

Ao qual o Dinis logo respondeu: "AVÔ, AVÔ, PODE-ME DAR A PRENDA PORQUE EU JÁ LÁ FUI."

De certeza que não se safou de um puxão de orelhas!!!!!! POBRE DINIS.

 (João Costa Pastor)

 

  REGRESSO DA FEIRA

A Historia dos Foguetes na Bagageira é uma história triste com um final feliz. Mas por acaso não eram foguetes eram à volta de 100 cartuchos de caçadeira que tinham sobrado de um concurso de tiro ao prato, e que tinha que ir entrega-los a Viseu.

Foi no dia 3 de Maio (Feira dos Burros em Lamego), por acaso também lá ia o Dinis, o Fernando Morgado, o Damas, o Manuel António, o Jorge Teixeira, o Rei, e eu (João Costa Pastor), que os ia levar a feira!!!!!!!!

Tudo se passou bem até a hora do regresso a casa, queríamos ir comprar uma cabra para comer à noite.

Quando íamos a subir de Lamego para Castro D’aire na região de Magueija ao dar uma curva depois de ter ultrapassado um autocarro, o carro não se aguentou e capotou, já era o peso da cerveja que era muita!!!!!! O carro incendiou-se, depois de começar a arder no interior mais parecia a guerra no Iraque do que um acidente de automóvel. Só o Manuel António esfolou um bocadinho a mão, tínhamos que o levar ao Hospital mas ninguém conseguia passar porque o carro ficou a arder no meio da estrada. Até que um senhor que era Padre disse:

"Eu até o levava ao Hospital, mas não se consegue passar".

Então o Jorge disse:

"Senhor Abade, dê-me o carro que eu passo!”

E assim foi. Entrou dentro do carro, gás a fundo, lá passou o Jorge. O Senhor Abade olhou e disse:

"Ai o meu carrinho!!!!!!".

Ainda conseguimos tirar os fatos que tínhamos comprado para um casamento, não me recordo de quem, talvez os outros se recordem, trazíamos também couves e cebolo para plantar isso ardeu tudo!!!

Ainda hoje me interrogo porque é que o carro não se aguentou, só podia ser o peso das cadelas porque a cabra ainda lá não vinha!!!!!!!

 (João Costa Pastor)

 

NOÇÕES DE GEOGRAFIA E VONTADE DE COMER

 Julho tórrido, o sol aquece desde a primeira hora, oito corpos de tronco seminu, formando dois grupos de quatro, chefiados por Mestre João Rosa e Mestre Fausto, levantam o mangual atrás das costas e baixam com violência contra os molhos de centeio.

Acima abaixo, fala o João, fala o Fausto. Compassos intercalares, mas rimados.

O centeio vai-se soltando da palha, espalhando-se pela eira coberta de mantas de tiras.

Senhoras vestidas de preto, não temendo os perto de 40 graus, vão arrebanhando o grão, colocando-o nas rasas.

Os troncos dos homens branco lixívia, emoldurados pelo castanho-escuro dos braços e do pescoço, libertam suor por todos os poros.

É a malha! Hoje é para família abastada. Não há que regatear esforços. O rancho certamente será melhorado e além disso, no tempo de abundância de mão-de-obra, só escolhem os mais esforçados para a surriba no mato das Fragas das Paivas, ou outro lugar do género. O dinheiro da jorna é pouco, mas sempre ajuda para o bacalhau que se come ao domingo com batatas e hortaliça, e quem sabe, meio quartilho de vinho, quando um dos numerosos filhotes faz anos.

Sol a pico. Marca a hora do almoço.

Mesa corrida com quatro travessas redondas, cheias de feijões com couves, ladeadas com salpicão e chouriço para os oito valentões. As equipas estão dispostas frente a frente como no jogo do braço de ferro.

João Rosa, lambareiro, come rapidamente a sua parte de carne. Tenta por todos os meios imperceptíveis arrebatar alguma que pertence a Fausto. Este apercebe-se dos seus intentos e fica de olho aberto.

João Rosa roda a travessa 180 graus, dizendo:

-"O mundo é uma bola", de modo a que a carne ficasse toda do seu lado.

Fausto replica:

-"Mas tanto anda como desanda", voltando a travessa à posição inicial.

João Rosa, humilhado, baixa a cabeça sobre os cotovelos.

A Dona da Casa, apercebendo-se da situação, vai ao fumeiro e trás mais meia dúzia de enchidos, distribuindo-os pelas diversas travessas.
O pessoal rejuvenesce de contentamento, recarregando baterias para continuar a tarefa.

(tonito)

 

AS PERIPÉCIAS DO TIO MAXIMINO.

 Maximino das Ferreiras tinha por hábito contar peripécias, regando ao máximo as suas aventuras imaginadas.

Junta um grupo de crianças à sua volta e começa por contar a história da mobilização para a guerra de 1914/1918.

Apresenta praça em Viseu, onde conhece uma enfermeira mais linda que o sol cristalino. Devido à sua boa apresentação, e sobretudo ao seu patuá, esta ao fim de 15 dias estava caídinha de amores por si, jurando fidelidade eterna, acompanhando-o em todos os momentos.

Maximino é destacado para a frente de batalha em França. A enfermeira alista-se como voluntária para servir a sua Pátria, ou melhor o seu Amor.

Já em Lisboa, no cais de Alcântara, enquanto espera a entrada no navio, que os levará a Calais. Maximino dá uma saltada a um bar próximo para beber uma cerveja.

Sua amada fica no cais guardando as malas de cartão. No bar, Maximino é servido por uma loira mais elegante que a Greta Garbo. Esta, depois de lhe despejar a cerveja no copo, passa-lhe uma mão pela nuca, acariciando-lhe os seus cabelos ondulados. O sangue de Maximino ferve de tal maneira que não resiste a enviar-lhe um piropo!

"Quem diz que as flores não andam, não conhece as verdadeiras virtudes da natureza".

A loira gostou do piropo, senta-se a seu lado, os joelhos tocam-se levemente. Maximino perde a noção do tempo, seus sentidos fixam-se única e exclusivamente na escultura que está a seu lado.

No cais o navio já tinha dado o apito para o embarque. A enfermeira zelosa, transportou as malas para o "Infante de Sagres", esperando desesperadamente o seu amado. A loira, por motivos de força maior, tem que se levantar.

Maximino cai na realidade. O dever dum militar é servir a sua Pátria, sujeitando-se a todos os tipos de sacrifícios. Corre como um louco para o navio. Quando chega ao cais, este já vai no alto mar, ao longe vê e ouve a enfermeira gritar:

-Agarra-te à corda! Agarra-te à corda!

Maximino que nunca tinha entrado num tanque cheio de água, em desespero de causa, agarra-se à corda, conseguindo atingir o navio que se movia a 40 nós em direcção ao Canal da Mancha.

Uma das crianças perguntou. Ó tio Maximino, você quando chegou ao navio ia todo molhado?

O que este respondeu:

- “Sequinho! Nem sequer molhei o dedo do pé grande!”

Uma parte do grupo ficou estupefacta. Outra parte riu-se para dentro, com medo de levar uma galhetada.

Maximino rematava:

 - “Acreditem que isto é verdade.”

Os miúdos vão para casa, e adormecem a pensar nas peripécias do tio Maximino.

 (tonito)

 

DETALHES PASSADOS NA MATA DO BUGALHAO TIO ZE D'AVOES

 Foi no século XIV, segundo regista a lenda, que pelo Bugalhão passou El Rei D. Dinis, e que ali dialogou com um pobre velho, não se sabendo se talvez fosse com a própria família do TIO ZE D'AVOES!

O Rei perguntou ao velho porque é que ele estava assim tão conservado.

O velho respondeu ao Rei:

- "Majestade" eram 3 e 3 de cada vez, 7 cada noite e uma cada mês.

E o Rei espantado perguntou o que ele queria dizer com o significado destas palavras.

Ele respondeu:

- 3 refeições ao dia, 3 garrafas de vinho a cada refeição, 7 horas que dormia durante a noite e uma cada mês.

 

Na aldeia de Picão
Nasceu um homem valente
Que fez toda a sua vida
Na boca de toda a gente.

Viveu pobre mas honesto
Numa humilde habitação
Fez toda a sua vida
Nas matas do Bugalhão.

Agora com seus 100 anos
Homem do século passado
Segundo nos diz o povo
Viveu pobre mas honrado.

Veio a Tuna de Cetos
Outras organizações
Prestar suas homenagens
Aos anos do TIO ZE D'AVOES.

Não aprova a medicina
Tendo-lhe aborrecimento
O vinho e pão de milho
Seu principal alimento.

Alegre guarda o seu gado
O que ainda hoje acontece
Tão satisfeito da vida
Que até da morte se esquece.

Já foi no século XIV
Segundo a historia nos diz
Bem perto da sua casa
Passou o Rei D. Dinis.

Houve um homem que atendeu
O Rei, Alta Majestade
Talvez da mesma família
Seria lenda ou verdade?

Autoria de ALCIDES DA COSTA PINTO (há uns anos atrás).

 (João Costa Pastor) 

 

O CABRITO QUE MAMOU ANTES DE NASCER!

 Maximino das Ferreiras, aparece na Quintã muito bem disposto, de sorriso rasgado e aberto que quase lhe chegava às orelhas.

- Estás muito contente Maximino, o que se passa? - Pergunta o pessoal.

- Venho da corte fundeira,

de visitar a minha cabra parideira.

A cabra maltez,

que pare três,

de cada vez.

- Realmente é um regalo ver essa cabra. Não deve haver nenhuma igual no concelho! - Diz o Jerónimo.

- O que vocês não sabem é que o último cabrito mamou antes de nascer!

- Ai com mil diabos! - Diz o Alcides.

O Pastor abre os braços, que parece mais o Cristo Rei. Dá uma gargalhada que se ouve no Outeiro de Baixo. O Horácio de sorriso trocista, esfrega as mãos nas paredes do tanque. Cada um reage à sua maneira de espanto e admiração.

- Eu até não levo a mal vocês zombarem na minha cara. Porque se eu não visse, também não acreditava. O cabrito quando estava a nascer, curvou o pescocito na direcção do úbere. A cabra inteligente, mais inteligente que vocês todos juntos, apercebendo-se do desejo do filhote, deitou-se com muito jeitinho, de barriga e pernas para o ar, e ia fazendo força. A boca do cabrito esfomeado, abocanhava as tetas da mãe, enquanto mais de metade do seu corpo ainda estava dentro do ventre.

O Pessoal por respeito aos seus 90 e muitos anos, fez de conta que acreditou, e Maximino passou mais um momento feliz, por pensar que impingiu mais uma das suas vaidades. Sem que no entanto Paulino não deixasse de desabafar baixinho:

- Porra! Porra! Catano diabo. Este velho já deve mais de 10 anos à cova, e ainda está a comparar-nos com chibitas. Sou um homem inteligente. Já fui Presidente da Assembleia de Freguesia.

 (tonito)

 

 A "BICHA" PREGUIÇOSA

 Noite de Agosto, temperatura agradável, as crianças brincam às escondidas na Eira da Costinha. Um clarão surge lá para os lados da Levada, as labaredas rompem pelos matos da Pralva.

O alerta está dado. Há que avisar os proprietários.

Bate-se à porta do Paulino. Não dá sinal de vida. As crianças impacientes, batem com os pés no cimento do terraço. Bate-se com mais força na madeira! E finalmente a porta é aberta.

- Porra! Porra! Levei mais de meia hora a educar a minha "bicha", e quando ela finalmente conseguiu comportar-se como um verdadeiro cavalheiro, levantando-se para que uma senhora se pudesse sentar, colocando-se em condições de poder cumprir as suas obrigações, aparecem vocês a interromper a parte mais gostosa. Preferia que aquela trampa ardesse toda.

Os mais espevitados riem-se baixinho. Os mais inocentes, encolhidos, pedem desculpa por tê-lo acordado.

- Não tem mal nenhum – Diz Paulino – Vamos lá apagar o fogo, que o outro fica para a próxima vez. Pode ser que nessa altura a minha "bicha" seja mais educada.

O pessoal em grupos, armados de enxadas e giestas compridas, sobem pela estrada em direcção à Levada, para tentarem ter mão nas labaredas. 

(tonito)

 

A VIÚVA HONRADA.

O moço dos Serafins era um verdadeiro galã, um autêntico Casanova, a sua namorada oficial era Maria Teresa, mas todas as raparigas da aldeia tentavam corteja-lo.

Levou dianteira a filha do Zé de Sobradinho, que embora comprometida, desejava-o ardentemente. O galã conhecendo os seus desvios, prometeu-lhe casamento caso esta garantisse pureza sexual. A rapariga aceitou, mostrando naturalidade.

Quando o Casanova descobre que tinha sido enganado, pois a virgindade já tinha voado, rompe imediatamente a promessa. A jovem jura vingança. Conta a seus pais, jurando a pés juntos, que nunca tinha sido possuída por outro homem. Zé de Sobradinho acredita cegamente na sua filha. Pede explicações ao moço dos Serafins, este explica-lhe todos os pormenores, porque o levou a quebrar a promessa de levar sua filha ao altar.

Foi o mesmo que falar para as paredes. Para o velhote a explicação não passa de subterfúgios. A palavra de sua filha é sagrada. Ou há casamento ou o sangue do galã será derramado sobre as pedras de um local qualquer. Este ciente das suas razões, não aceita o ultimato.

Num dia de nevoeiro, depois de se certificar que não havia ninguém nas proximidades, Zé de Sobradinho espera o rapaz, de espingarda apontada, lá para os lados do Caminho Apertado, como quem espera um coelho à saída da toca. Passa o jovem de enxada ao ombro, trauteando uma melodia da época. Um tiro certeiro derruba-o imediatamente. Não satisfeito, Zé de Sobradinho pega na sachola, e mais uma cacetada na cabeça. O galã jaz no caminho como morto.

O velhote regressa à aldeia, impávido e sereno, como se nada acontecesse, pensando no entanto, que o dito moço, já se tinha passado para o outro mundo.
Por milagre ou ironia do destino, o Casanova levanta-se, e embora cambaleando, tenta o regresso a casa.

Pelo caminho, aparecem 2 anjos da guarda que o auxiliam nos seus intentos. Como forma de gratidão o moço, mais morto que vivo, confessa-lhes todos os seus segredos, entre os quais, o amor genuíno por Maria Teresa.

Esta ao tomar conhecimento dos verdadeiros sentimentos do seu amado, prontifica-se a consentir o matrimónio. Em agonia profunda, já no leito, o padre celebra o casamento, e logo de seguida a extrema-unção.

Maria Teresa, veste-se de negro e segue assim até ao fim da sua vida, acompanhada do cognome de "viúva honrada", pois nunca mais olhou para um homem para observar o seu físico, e nunca chegou a saborear os prazeres da carne.

(tonito)

 

A SINA PERFEITA

Fausto e Abílio da Fonseca foram à romaria de São Macário. No meio da multidão são interpelados por uma Senhora vestida toda de preto, uma cigana.

- Ai Sinhôr! Deixe-me ler a sina, são só 5 escudos.

- Se acertar no rosário da minha vida, pago-lhe a dobrar! - Respondeu-lhe Abílio da Fonseca.

A cigana fingiu que não percebeu, e virou-se para outros visitantes.

Abílio e Fausto continuaram na sua passeata, conversa aqui, palavreado acolá, um copo aqui, outro mais acima em companhia de amigos que iam encontrando.

Exaustos de tanto andar, sentam-se num penedo para retemperar forças. Aparece de novo a cigana.

- Ai Sinhôr| Deixe-me ler a sina, são só 10 escudos.

- Mau, mau! - Diz Abílio – De manhã eram 5 e agora já são 10? Será por causa do calor?

- Sinhôr! Estive a meditar na sua vida. Se eu acertar, o Sinhôr dá-me vinte, senão! Não me paga nada.

Abílio da Fonseca, convencido que a cigana não dava uma para a caixa, aceita a proposta. A verdade é que ela acerta em todos os passos da sua já longa existência.

Abílio estupefacto, dá-lhe os últimos 20 escudos que tinha no bolso e regressa a casa. Conta a toda a gente o sucedido. E Fausto confirma. As gentes de Cetos vêem naquela Senhora vestida de negro, uma plataforma de saída para todos os seus males.
Se Ela acertou na vida do Abílio, é porque tem poderes sobre-humanos. Também é bem capaz de adivinhar os números da lotaria. Comenta-se à boca cheia. Alguns até já pensam em alugar uma camioneta à empresa Guedes, para fazerem uma excursão ao São Macário. Pois este, a troco de meia dúzia de Pai-Nossos e outras tantas Avé-Marias, intercederia junto da cigana, para que voltasse àquele Santuário.

Fausto, vendo que a ingenuidade já ia longe de mais, decifra o enigma.

- A cigana acertou na vida do Abílio, porque eu contei-lhe-a tintim por tintim enquanto ele discutia entusiasmado sobre o valor da sua vaca lutadeira com o Camilo do Cotêlo.

E assim, em poucos segundos, toda a esperança numa vida melhor, se desmoronou como um castelo de cartas.

 (tonito)

 

A VACA PESTINHEIRA

Zé Teixeira, caseiro de mestre João Aveleira, esmerava-se ao máximo para que se dissesse que as suas vacas eram as mais bem tratadas do concelho. Perdia noites em claro, revezando-se com seus filhos, chegando ao ponto de utilizar um despertador para que tivesse a certeza que a água pública corria nas suas terras, de modo a que a erva crescesse em abundância.

Ano péssimo! A geada dos dias frios de Dezembro queimou todos os pastos. Zé Teixeira tem necessidade de recorrer com mais frequência ao palheiro para que o pelo luzidio dos animais continuassem a brilhar em todas as exposições. "Bonita", a vaca mais disputada em todas as feiras, recusava-se a comer a palha seca. Era uma pena vê-la emagrecer dia após dia. Zé Teixeira faz tudo o que está ao seu alcance para inverter a situação. Mandou vir medicamentos caros da Holanda para lhe abrir o apetite! Tudo em vão. Tentou uma reza do bruxo de Pendilhe! Nada resultou.

Em desespero de causa, teve uma ideia brilhante. Mandou fazer uns óculos com lentes verdes de modo a enganar o animal.

Remédio santo! A vaca comia agora a palha seca como se fosse a erva mais tenra deste mundo. Em 3 semanas torna-se no bovino mais cobiçado do distrito. Em pouco tempo triplicou o seu valor.

Mestre João Aveleira, homem de negócios, aproveitando a maré-alta, resolve vendê-la. Zé Teixeira, desgostoso, entregas as terras e parte para França em busca da felicidade perdida.

(tonito)

 

A PERDIZ COM BICO DE PAU

Os caçadores andavam desanimados, os insecticidas e o fogo tinham extinguido as aves de caça.

A Junta de Freguesia, visando aumentar o grau de contentamento dos seus conterrâneos, resolve repovoar a área com perdizes de aviário. Estes passarinhos mal sabem voar. O povo temendo a sua morte por falta de nutrição, passa a alimentá-los com sementes de cereais, juntamente com as galinhas. As jovens perdizes rapidamente copiam os hábitos das galináceas. Era vê-las às debandadas pelas ruas da Aldeia à caça de insectos, chegando mesmo a entrar nas habitações para picarem migalhas.

Uma delas entrou na oficina do João Redondo, carpinteiro de profissão, onde, na bancada, trabalhava uma serra circular. A perdiz confunde serradura com cereal. Os dentes da serra amputam-lhe o bico.

João sente que tem que fazer alguma coisa para salvar o animal. O formão, a plaina e a lixadeira rompem o pau de amieiro, em menos de meia hora a prótese está pronta. Bico em madeira recubro com terminais pontiagudos em aço, colado à córnea com resina epoxy e o animal fica como novo.

João, irritado com a quantidade de moscas que frequentam o seu estabelecimento, ensina a ave a caçá-las. Esta aprende a lição com rapidez e eficiência, em poucos dias mosca pousada era mosca morta. Torna-se rapidamente num pesadelo para os calvos, as pontas de aço do seu bico penetram no couro cabeludo, em busca do insecto, provocando dor intensa e marcas de sangue por tudo o que é careca.

Reúne-se a cúpula das gentes de Cetos. Discussão acesa sem resultados palpáveis. Os que tinham falta de cabelo defendiam com unhas e dentes a extinção do pássaro, os outros, com João Redondo à cabeça, defendiam a sua utilidade no contributo para a higiene da comunidade. Pois cerca de 80% das moscas teriam sido banidas!

Manifestamente tornou-se impossível chegar a um consenso. A decisão ficou adiada para outra altura em que os ânimos estivessem mais serenos.

Na manhã seguinte, quando o sacristão se preparava para tocar o sino, anunciando a missa, vê a perdiz pendurada no campanário da capela. A notícia propaga-se a uma velocidade louca. Os nervos sobem à flor da pele. Surgem todos os tipos de ameaças, desde agressões físicas até ao recurso a tribunais, baseadas exclusivamente em suspeições empíricas e aleatórias.

Os mais lúcidos, a muito custo, lá conseguem pôr água na fervura, a pouco e pouco o enforcamento da perdiz vai caindo no esquecimento. As inimizades vão-se diluindo, para isso muito contribuiu o facto de no lugar das bicadas, nascerem cabelos fortes como o aço, convencendo os carecas que a dor intensa outrora sofrida, tinha sido uma dádiva de Deus.

 (tonito)